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Rita Serrano diz que “temos que ter vacina para poder atender com dignidade as pessoas” e que a “sanha privatista voltou com força”

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A situação de pandemia e o pagamento da nova remessa do Auxílio Emergencial são alguns dos temas que preocupam os brasileiros nos dias de hoje. Em entrevista exclusiva à APCEF/RJ, a representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa, Rita Serrano, falou sobre o assunto e também sobre as tentativas de privatização da Caixa 100% pública. Confira abaixo:

APCEF/RJ - A direção da Caixa em muitos casos fecha os olhos para a pandemia e segue expondo, explorando, não cuidando e não valorizando seus empregados. As agências lotadas, os riscos com a COVID-19 e o pagamento a menor da PLR Social são exemplos. Qual a sua opinião sobre o atual quadro?
Rita Serrano – A Caixa tomou medidas importantes no início da pandemia, graças a cobrança das entidades. Foi o primeiro banco a colocar os empregados em home office e a comprar equipamentos de segurança, mas aí veio o auxílio emergencial, filas gigantescas, pressões de todo tipo e mesmo assim os empregados deram conta de atender praticamente metade da população brasileira. O problema é que essa realidade piorou drasticamente as condições de trabalho, aumentou a cobrança por resultado e ampliou os riscos de contágio pela COVID-19. O cansaço foi eminente, e infelizmente estamos tendo falecimentos de colegas e prestadores de serviço. Esse ano a situação piorou, o descaso do governo federal fez ampliar a pandemia e justamente no momento mais agudo da doença, o banco convoca empregados ao retorno.  E o prêmio para todo esse esforço foi pagar a menor a PLR social, justamente a parcela que está vinculada aos programas sociais. Situação absurda, que precisa ser resolvida pela direção da Caixa.

Em plena pandemia, o governo segue com sua arrasadora política de fatiamento e entrega das estatais. Sobre a Caixa, a imprensa tem noticiado que até 27 de abril as ações da Caixa Seguradora serão precificadas. Atualmente quais são os reais riscos de a Caixa deixar de ser 100% pública?
Rita Serrano – A Caixa vem sendo alvo dos desejos do tal “mercado” há tempos. Na década de 1990 o projeto de FHC era privatizar, mas não conseguiu, porque a pressão das ruas foi maior. Em 2015, foi derrotada no Congresso após grande mobilização social, a redação original do PLS 555 (Estatuto das Estatais), iniciativa do PSDB, que previa tornar o banco S/A e abrir seu capital. A mesma tentativa aconteceu em 2017 no governo Temer, quando a maioria dos membros do conselho de administração (votei contra) defendeu, na mudança estatutária, que a Caixa se tornasse S/A. Novamente a proposta não vingou, graças à mobilização de entidades e parlamentares. Mas a sanha privatista voltou com força no governo atual, que sempre afirmou não ter interesse em privatizar a Caixa, o BB e a Petrobras. Para conseguir enfrentar a opinião pública, as entidades, movimentos e trabalhadores, que são contra a privatização, se reuniram e o governo optou por vender por partes, se desfazendo dos principais ativos e subsidiárias dessas estatais, operações atrativas para o capital privado. Dessa forma, vai desmantelando completamente o rico patrimônio público, construído por mais de um século. Agora o banco acaba de vender toda sua participação do Banco Pan para o BTG Pactual, e tentará pela terceira vez realizar o IPO da Caixa Seguridade - a primeira foi em 2015. Existem também projetos idênticos para as operações de cartões, fundos de investimentos, loterias e a criação de outra instituição financeira, chamada de Banco digital.

A Fenae, a Contraf-CUT, os Sindicatos dos Bancários e as entidades representativas dos empregados da Caixa estão há tempos batalhando pela manutenção da Caixa 100% pública. Porém, a corda vem apertando. O momento atual está mais crítico? Existe um outro caminho para impedir a privatização da Caixa?
Rita Serrano – Somos privilegiados, além dos sindicatos, temos as Apcefs e a Fenae. Essa estrutura de organização foi que garantiu a conquista de direitos trabalhistas e a manutenção da Caixa Pública até hoje. O momento é de fortalecer as entidades para tentar impedir o desmantelamento da Caixa e do patrimônio público brasileiro. Imagina o que seria do Brasil agora se não tivesse um banco público do porte da Caixa, se não houvesse o SUS e os laboratórios públicos. Nosso dever é continuar enfrentando esses desafios e defendendo o banco público, porque ele é fundamental para o país, agora mais do que nunca.

Estamos em um momento muito sensível da crise da pandemia. No último dia 6, superamos a marca de 4 mil mortes em 24h pela COVID-19. Como classificar e o que esperar desse governo que não compra vacinas suficientes, diminuiu o valor das parcelas do Auxílio Emergencial e diminuiu o número beneficiários desse auxílio?
Rita Serrano – Vivemos em meio a uma tragédia, o governo parece uma nau sem rumo, e quem paga o pato é a população mais pobre, com o corte no auxilio, aumento de mortes, falta de hospitais e vacinas. Mas tudo tem solução, não há mal que dure para sempre. A sociedade precisa estar organizada, pressionar o governo, os parlamentares, prefeitos, governadores e lideranças, para que tenha vacina urgente para todos e que o país volte para os trilhos do desenvolvimento. Os empregados da Caixa devem se unir junto às entidades para fazer o mesmo, temos que ter vacina para poder atender com dignidade as pessoas, exigir respeito e melhores condições de trabalho. Tenho certeza de que juntos sairemos dessa, mas é preciso se cuidar, estar atento e forte. Dedico essa frase aos colegas. “A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las” (Santo Agostinho).

 

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